Uma Defesa do CALVINISMO
Eu não consigo entender a razão pela qual sou salvo, exceto sobre a
base de que Deus queria que isto fosse assim. Eu não posso, se olhar
sinceramente, descobrir qualquer tipo de razão em mim mesmo pela qual eu
deva ser um participante da graça Divina. Se não estou neste momento
sem Cristo, é somente porque Cristo Jesus tem Sua vontade para comigo, e
que esta vontade é que eu deveria estar
com Ele onde Ele estiver, e que deveria partilhar da Sua glória. Não
posso por a coroa em nenhum outro lugar exceto sobre a cabeça Daquele
cuja poderosa graça tem me salvado de seguir abaixo para o abismo. Foi
Ele que transformou meu coração, e me colocou de joelhos diante de Si.
Posso bem me lembrar da maneira pela qual eu aprendi as doutrinas da
graça em um único instante. Nascido, como todos nós somos por natureza,
um arminiano, ainda cria nas velhas coisas que tinha ouvido
continuamente do púlpito, e não via a graça de Deus. Quando estava vindo
a Cristo, pensei estar fazendo aquilo tudo por mim mesmo, e ainda que
buscasse o Senhor sinceramente, não tinha idéia de que o Senhor estava
me buscando. Não penso que o novo convertido esteja, a princípio,
consciente disto. Eu posso relembrar o dia e a hora exatos em que pela
primeira vez recebi aquelas verdades em minha própria alma, quando elas
foram, como diz John Bunyan, gravadas em meu coração como com um ferro
em brasa; e eu posso recompor como me senti quando cresci repentinamente
de um bebê para um homem que havia feito progressos no conhecimento das
Escrituras, por ter encontrado, de uma vez por todas, a chave para a
verdade de Deus.
Em uma noite de um dia de semana, quando
estava sentado na casa de Deus, não estava pensando muito sobre o sermão
do pregador, porque não cria nele. Um pensamento me tocou: "Como você
veio a ser um Cristão?" Eu vi o Senhor. "Mas como você veio a buscar o
Senhor?" A verdade lampejou por minha mente em um momento, eu não
poderia tê-lo buscado a menos que tivesse havido alguma influência
prévia em minha mente para me fazer buscá-Lo. Eu orei, pensei eu, mas
quando perguntei a mim mesmo, como eu vim a orar? Fui induzido a orar
pela leitura das Escrituras. Como eu vim a ler as Escrituras? Eu as
havia lido, mas o que me levou a assim proceder? Então em um instante,
eu vi que Deus estava na base disto tudo, e que Ele foi o Autor da minha
fé, e assim toda a doutrina da graça se tornou acessível a mim, e desta
doutrina eu não me afastei até hoje, e desejo fazer desta, a minha
confissão perpétua: "Eu atribuo minha conversão inteiramente a Deus".
Certa vez compareci a um culto aonde o texto veio a ser: "[Ele]
escolherá para nós a nossa herança"1 e o bom homem que ocupou o púlpito
era mais do que apenas um pouco arminiano. Por esta razão, quando
começou, ele disse: "Esta passagem se refere inteiramente à nossa
herança temporal, não tem nada a ver com nosso destino eterno, porque",
disse ele, "nós não queremos que Cristo faça por nós a escolha do Céu ou
do inferno. Isto é tão claro e direto, que cada homem que tenha um grão
de senso comum irá escolher o Céu, e nenhuma pessoa será tão
desajuizada que escolha o inferno. Não temos qualquer necessidade de
alguma inteligência superior, ou de qualquer grande Ser, para escolher
Céu ou inferno por nós. Isto é deixado para o nosso próprio
livre-arbítrio, e temos bastante sabedoria dando-nos meios
suficientemente corretos para julgar por nós mesmos," e, portanto, como
ele muito logicamente inferiu, não há necessidade de Jesus Cristo, ou de
qualquer outro, fazer a escolha por nós. Nós podemos escolher a herança
por nós mesmos sem qualquer assistência. "Ah!" eu pensei, "mas, meu bom
irmão, pode ser mesmo verdade que nós podemos, mas penso que precisamos
querer algo mais que o senso comum antes que possamos escolher
corretamente".
Primeiro, deixe-me perguntar, não devemos todos
nós admitir uma soberana Providência, e a designação da mão do SENHOR,
como os meios através dos quais nós viemos a este mundo? Aqueles homens
que pensam que, depois de tudo, nós somos deixados ao nosso próprio
livre-arbítrio para escolher este ou aquele para direcionar os nossos
passos, deve admitir que nossa entrada neste mundo não aconteceu por
nossa própria vontade, mas que Deus teve, naquela hora, que escolher por
nós. Que circunstâncias foram aquelas, sob de nosso controle, que nos
direcionaram a eleger certas pessoas como sendo nossos pais? Tivemos nós
alguma coisa a ver com isto? Não foi o próprio Deus que determinou
nossos pais, nosso local de nascimento, e amigos?
John Newton
costumava contar uma parábola sobre uma boa mulher que, de modo a provar
a doutrina da eleição, dizia: "Ah! meu caro, o Senhor deve ter me amado
antes de eu nascer, ou caso contrário Ele não teria visto nada em mim
para amar depois". Estou certo que é verdade no meu caso; Eu creio na
doutrina da eleição, porque estou bem certo que, se Deus não me tivesse
escolhido, eu nunca O teria escolhido; e tenho certeza que Ele me
escolheu antes de eu nascer, ou caso contrário Ele nunca teria me
escolhido depois; e Ele deve ter me eleito por razões desconhecidas por
mim, porque eu nunca pude encontrar qualquer razão em mim mesmo pela
qual Ele devesse me olhar com especial amor.
Se seria admirável
ver um rio brotar da terra já crescido, tanto mais seria olhar pasmado
para uma vasta fonte da qual todos os rios da terra saíssem borbulhando
de uma só vez; um milhão deles nascendo em um só nascimento? Que visão
haveria de ser! Quem pode concebê-la. E ainda assim o amor de Deus é
aquela fonte, formando cada um dos rios de misericórdia, os quais têm
sempre satisfeito nosso povo com todos os rios de graça durante o tempo,
e de glória depois de subirem. Minh'alma, permaneça naquele manancial
sagrado, e adore e exalte para todo o sempre a Deus, nosso Pai, que tem
nos amado! Bem no início, quando este grande universo estava na mente de
Deus, como florestas não nascidas na semente do carvalho; muito antes
que os ecos acordassem os ermos; antes que as montanhas fossem geradas; e
muito antes que a luz rompesse pelo céu, Deus amou estas criaturas
escolhidas. Antes que houvesse qualquer ser criado, quando o éter ainda
não havia sido agitado pelas asas do anjos, quando o próprio espaço
ainda não tinha existência, quando não havia nada exceto Deus somente,
mesmo então, naquela solidão de Deidade, e naquela penetrante quietude e
profundidade, Seu coração se moveu com amor por seus escolhidos. Seus
nomes estavam escritos em Seu coração, e então eram eles queridos de Sua
alma. Jesus amou Seu povo antes da fundação do mundo, mesmo da
eternidade! E quando Ele me chamou por Sua graça, me disse: "Porquanto
com amor eterno te amei, por isso com benignidade te atraí"2.
Se qualquer um me perguntasse o que eu entendo por um Calvinista, eu
responderia: "Ele é alguém que diz: Salvação do Senhor". Eu não consigo
encontrar nas Escrituras nenhuma outra doutrina além desta. É a essência
da Bíblia. "Só ele é a minha rocha e a minha salvação"3. Me diga
qualquer coisa contrária a esta verdade, e será uma heresia; diga-me uma
heresia, e eu acharei sua essência aqui: que ela se afastou desta
grande, desta fundamental, desta firme verdade, "Deus é minha rocha e
minha salvação".
Qual é a heresia de Roma, além da adição de
algo aos perfeitos méritos de Jesus Cristo, o acréscimo de obras da
carne, para auxiliar em nossa justificação? E qual é a heresia do
arminianismo além de adicionar algo à obra do Redentor? Cada heresia, se
trazida à pedra de toque, irá se descobrir aqui.
Eu tenho
minha própria opinião particular de que não há tal coisa como pregar
Cristo e Ele crucificado, a menos que nós preguemos que nos dias de hoje
isto é chamado de Calvinismo. É um apelido chamar a isto de Calvinismo;
o Calvinismo é o evangelho, e nada mais. Eu não creio que podemos
pregar o evangelho, se não pregarmos a justificação pela fé, sem obras;
nem sem pregarmos a soberania de Deus e Sua dispensação de graça; nem
sem exaltarmos a eleição, pelo inalterável, eterno, imutável,
conquistador amor do SENHOR; nem penso que podemos pregar o evangelho, a
menos que o baseemos sobre a especial e particular redenção de Seu povo
eleito e escolhido o qual Cristo formou sobre a cruz; nem posso eu
compreender um evangelho que deixa santos decaírem após serem chamados, e
sujeitar os filhos de Deus a serem queimados no fogo da condenação após
terem uma vez crido em Jesus. Tal evangelho eu abomino.
Não há
alma viva que defenda mais firmemente as doutrinas da graça que eu, e
se algum homem me pergunta se porventura me envergonho de ser chamado
Calvinista, respondo que eu não quero ser chamado de nada além de
Cristão; mas se você me perguntar, eu defendo a visão doutrinária que
foi defendida por João Calvino, eu replico, estou no centro de sua
defesa, e estou feliz por professá-la.
Mas, longe de mim,
sequer imaginar que Sião não contém nada além de Cristãos Calvinistas
dentro de seus muros, ou que não há ninguém salvo que não defenda nossa
visão. Creio que há multidões de homens que não conseguem ver estas
verdades, ou, pelo menos, não conseguem vê-las do modo em que nós as
colocamos, mas que não obstante, têm recebido a Cristo como seu
Salvador, e são tão queridos do coração do Deus de graça como o mais
ruidoso Calvinista dentro ou fora do Céu.
Frequentemente é dito
que estas doutrinas nas quais nós cremos têm uma tendência de nos levar
ao pecado. Eu tenho ouvido isto ser declarado muito positivamente: que
aquelas grandes doutrinas que amamos, e que encontramos nas Escrituras,
são licenciosas. Não sei quem terá a audácia de fazer esta afirmação,
quando considerar que os mais santos dentre os homens têm crido nelas.
Pergunto ao homem que se atreve a dizer que o Calvinismo é uma religião
licenciosa, o que ele pensa do caráter de Agostinho, ou de Calvino, ou
de Whitefield, que em sucessivas eras foram grandes expoentes do sistema
da graça; ou o que diria dos Puritanos, cujas obras estão cheias delas?
Se um homem tivesse sido um Arminiano naqueles dias, teria sido
considerado o mais vil herege vivente, mas agora nós somos vistos como
hereges, e eles como ortodoxos.
Pr. Charles Haddon Spurgeon
Uma Defesa do Calvinismo
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